segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eu




Suspendi o riso,
congelei o choro.
Carimbei minha vida,
páginas passadas.
Enverguei meus olhos para o céu,
esperei o dia se acabar.
Tentei contar as estrelas,
apaguei a lua com um simples toque.
Mas já era dia, ardia o sol...
Dormi então no meio da avenida
Sonhei como jamais sonhara,
acordei com o beijo de tua boa.


(Alexandre Nery in "Finito Fundo Infinito" - setembro/1987)



Pedras





Havia uma pedra no caminho do homem.
No caminho que dá no nada, havia uma pedra
e um homem por suas trilhas.
Pensando, o homem,
na insignificância da pedra no seu caminho
E desprezando a sua própria insensatez,
ele que é menos que uma simples pedra
na infindável trilha que é o universo.


(Alexandre Nery in "Finito Fundo Infinito" - setembro/1987)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Instinto




Eu queria estar agora nu
rolando na grama com um corpo junto ao meu
fêmea selvagem a se penetrar pelos anexos de mim
côncavos e convexos a não mais se deterem
partes agora de um único ser.


Queria estar louco
pra então já a pouco do meu fim
fingir-me de suicida como sempre o fui
e noutro momento arredio de nós
ambos nos perdermos no prazer do toque.


Queria estar bêbado
pra em pleno sábado já me declarar vencido
perdido na partilha dos meus espaços
mudo, mudado por outro toque seu
e por outro gole da champanhe que não se acaba
dono de tudo e escravo de todo o teu ser.


Queria estar proibido
apenas para ser teu fruto e eu mesmo te morder
no êxtase desconhecer os não permitidos
esconder-me dentro de ti
e acordar despido na praia,
de madrugada, já de novo a te querer.


(Alexandre Nery - in "Finito Fundo Infinito" - setembro/1987)

Nós






Nós somos o mundo
Utopias e falhas
Passos de inúteis vagabundos
Máscaras e talhos nas faces meninas
das mulheres esquecidas na rua
Luas e nuas partes de seres à mostra
Amostras de sexo por todo canto
Encantos e prantos sem nexo
A dor de se estar sozinho
em pleno universo cercado de outros grãos de areia
Terra e pó


Nós
toques de loucura
pele e repeles
inúteis amarguras
mais que dor,
pontos finais,
amor.


(Alexandre Nery - in "Finito Fundo Infinito" - setembro/1987)

Finito Fundo Infinito




Não há princípio que não se finde
Nem há um fim que não se precipite na incógnita
na imensurável razão do ser mais lindo
que mesmo sabendo ser não o começo
insiste em viver em meio ao infinito
universo de seres perdidos no infinito deles mesmos
Com todo medo em serem princípio
apenas para não serem fim.


(Alexandre Nery - in "Finito Fundo Infinito" - setembro/1987)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Receio e Reações



Se toco
a pele da morena
e desejo a boca
molhada
na minha seca boca
e desejo a pele
suada
por sobre a minha, arrepiada
suspiro nos desejos
e nos corpos
em desalinho
apenas receio
a reação em não
e outra diversa reação
de me querer
enquanto apenas receara
a cada novo desejo
ser o desejo último
do eu sozinho
perdendo às vezes a chance
de ser desejo de dois
virando um
embalados nos toques
nos beijos
nos abraços
e no contorcer cada ponto de mim
noutro nada igual
e a te possuir
enquanto possuído
num receio tolo
de tudo não durar mais que instantes
ou mais que o sonho
de uma noite.

(Alexandre Nery — 17.07.2000)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Irreverências



Me encontro com a loura
em sonhos
e em cada outra que me cruza
os caminhos
como se fosse aquela
proibida
pela reverência de cada dia.

Me deixa perplexo a loura
que flerto
alucinado em sorrisos
inconsequentes
a esquecer os ritos
e a merecer um pito
do outro lado de mim.

Me dita uma frase a loura
e se esquece igualmente dos ritos
dos íssimos e doutras distâncias
lúdica e não mais tímida
a me chamar pelo nome
e a se trair
como se não estivesse ali.

Me leva o sorriso da loura
e o esquecer-me em negro
chamado como num canto a sós
a imaginar-me qualquer dia
esquecido também do meu manto
advogando então um acordo
em prol apenas de mim.

Me encontro com a loura
em sonhos
e noutros flertes a cada dia
esperando o olhar
e a denúncia
de igual querer
outro lugar.

Me ilumina a loura
luz divina e menina, linda
contraposta ao negro sobre mim
primazia conveniente
irreverência contida,
segredos por ora,
na tentativa insana de me revelar.

(Alexandre Nery — 10.07.2000)

Amiga




Há um toque diverso
que passa ao largo
dos toques de homem e de mulher
pois são encontros de almas
a se conhecerem mais que outras
a se revelarem
e no descobrirem
cada qual
um pouco do outro
acabando por permitirem
que se descubram
no mais íntimo
e mais escondido segredo:
aquele que se esconde de nós próprios
e que apenas o outro pode nos contar.

Há os segredos
e outras mensagens
não reveladas a mais ninguém
e por vezes sequer faladas
fruto do nada
das vozes caladas
dos drinques e outros drinques perdidos
em que o sorriso ou a falta dele
são mais que mil palavras
e mais que mil gestos
e ao outro nada mais resta
que emprestar respostas
ou o colo em que se afaga
toda a insegurança
que o espelho não resolvera.

Há o querer bem
o sentir saudades
e o não ver maldades
em embora haver em cada lado
homem e mulher
nada mais cada qual querer
que entender
os porquês ou a falta deles
que se nos apresentam
por vezes e noutras vezes
por tantos outros que nos amam.

E por tudo e portanto
apenas a ti, minha amiga,
poderia contar tudo que sinto
e porque não lhe minto
pode contar-me o que sentir
ou mesmo fingir que nada há
sobre cada qual que nos cerca
em toques diversos
e em linhas diversas de tempo e espaço
em que cada conselho cedido
vale muitos outros que um dia me pode pedir.

E por tudo e portanto
nada hei de cobrar-lhe
minha amiga
por segredos guardados
ou conselhos dados
porque igualmente por mim
outros me guardará ou dará.

E se nada me deve
e nada lhe devo
outros tantos minutos
ainda hei de lhe roubar e ceder
por mais que se tente contaminar
a amizade linda
que há entre nós.

Porque no fundo da alma
há mais que homem e mulher:
há melhores amigos.

Porque no fundo da minh'alma
menos importa ser homem ou mulher:
mais conforta haver quem há de me entender.

(Alexandre Nery — 15.04.2000)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dúvidas



Não sei como explico
ter-me perdido
ontem por uma
hoje por outra
e toda loucura
ou toda lágrima
antes vertidas
agora é desejo
de ver-te despida
de todo o medo
que ainda tenho
de ter em abraços
ou mais em beijos
outro engano
ou tardio acerto
apenas quando finda
mais uma despedida.

(Alexandre Nery — 19.12.1999)

Gramado




Tudo na vida é relativo
a começar de nós
que ficamos a procurar porquês
e sem entender
percebemos tarde
o quanto deixamos por viver

Nós somos todos corpo e alma
Mas ficamos buscando a razão
e razões
Deixando sedento o corpo
Enquanto a taça esvazia
E só quando ela acaba
e o porre acaba
Se encontra a emoção
se preenche a alma
Infinita em tanto amar
Depois de tanto tempo perdido.

(Alexandre Nery - 28.09.1999)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Testamento




Amanhã
Quando for mera lembrança
Me transformem em cinzas
E me levem por lugares que amei
E nos quais fui amado e amante
Me deixem um pouco
Em cada qual
Para que eu não esteja em lugar algum
E esteja em todos os lugares
Por onde andei
Ou aqueles que minhas memórias
Agora apenas poemas ou outras linhas
Perdidas
Me achem
Nos canais de Veneza
Nas vielas de Roma
Nas praças de Paris
Nos lagos suíços
E por onde mais tenha passado
E um dia lamentado
Não ter ido ou não voltado
Com quem me amava.

Amanhã
Quando for meras cinzas
Não discutam o que não fiz
Mas quem fui
E o que deixei
Que deva ser guardado
Nas memórias
Da mulher e dos filhos
Que amei
E quanto lamentei
Se não disse mais
Ou apenas guardei
Em poemas e versos
não traduzidos
nem compreendidos
Por quem deveria tê-los lido
E ainda por tudo mais
Que escrito ou não
Possa estar em gavetas
Ou guardado em pastas
Escondido
Esperando ser achado e entendido.

Amanhã
Quando for meras cinzas
Dividam o que restar
entre iguais partes
de um mesmo tipo
de quinhão
Memórias
Escritos
Valores
E amores
O que fiz
Ou deixei pra trás
O que quis
E o que não consegui
O que fui
E o que apenas imaginei ser
Dividam tudo
Ou nada
Porque de tudo o que tive
Ou ainda tenho
Apenas não se hão que dividir (please)
Os que fiz.

Amanhã
Quando for meras lembranças
Não lamentem
a minha ida
Nem critiquem
a minha vida
Porque se vivi como pude
E não como quis
Nada lamento pelo que não consegui
Nem retornaria no tempo
Ainda que pudesse
Com o risco de perder
O que tive
Pelo que preferi
Sempre
Não lamentar o ontem
Nem esperar muito do amanhã
Mas me conformar com o hoje
E prosseguir
Como se fosse o último dia
Da longa série que dizem
Ser o que vivi.

Hoje
Logo, logo
Vai ser apenas ontem
Porque o amanhã logo chega
E quando outros não mais estiverem por vir
Nada mais haverá que nada no longo livro que, então,
Apenas terei, assim, escrito o fim.

Amanhã,
Logo, logo
Vai ser apenas mais um dia
Que até que se consuma
E outro se ponha defronte mim
Não sei se é fim
Ou mais um ontem para eu somar, enfim.

Porque meus dias se contam de trás pra frente
A minha vida, como a de todos,
É um descontar de dias e não soma
Apenas com a divina ironia
De que não sei o número final
Nem assim, afinal,
Quando a prova dos noves se conclui
E quando eu não recomeço outro dia
Mas findo o que tive
Ponto e não mais exclamações ou dúvidas
Ponto apenas
Ponto, pronto ou não
Para o que dizem fim
Sorte ou não
Conforme se acredite que outra chance começa
Ou que apenas de sobrar
Além do que fiz
Do que escrevi
E dos que tive
Para se lembrar de mim
Num eterno que dura
Na mesma medida
Do não ser esquecido.

(Alexandre Nery - 20.11.2011)